A casa Mãe.

    

    - A casa, mãe, a casa. 

    Não sei distinguir uma da outra. Quando o teu perfume entra pelo quarto, inundando-o de pétalas de luz, junto com os primeiros raios de sol. Quando os teus longos dedos, suaves, delicados, procuram os meus caracóis num afago doce. Quando o teu sorriso entra pela manhã, afastando as nuvens, a noite, o que ficou esquecido nos dias que agora parecem tão distantes ou tão presentes como o teu embalo. Eu nos teus braços, mas um dia, lá longe, serás tu nos meus. 

     - A casa, mãe, a casa. 

     Já não tem mistérios, esconderijos de índio e tu cowboy, plumas esvoaçantes pela sala e as panelas ao lume na cozinha, como vulcões, furiosas de sabor na ponta da colher de pau.

     - Prova, filho, prova.

     Falta sal, mãe? Antes que chegue o pai, temos tempo para mais uma corrida nas nossas estepes onde cavalgamos sem pressa até ao dia seguinte. Anda, já não falta sal, e depois, preciso de saber o que Ishmael tem para nos contar. Afaga-me de novo os caracóis. Nunca os cortarei. Então, debaixo dos lençóis, embarcamos no Pequod, perdendo-nos nestas paredes que, de noite e só de noite, se abrem e deixam entrar todos os sonhos até atracar de novo nos teus olhos, esse porto seguro em forma de bom dia.

      - A casa, mãe, a casa.

     Quando o pai chegar conto-lhe tudo: que não precisa de se preocupar, um dia eu tomarei conta de ti, dele, de nós, tomarei conta destas paredes, pintá-las-ei de todos os tons de saudade para que nunca se esqueçam de onde vim: do teu ventre onírico. 

    - A casa, filho, a casa. 

    Será sempre o teu colo. O teu porto, um refúgio em forma de regaço, nos meus braços, nos meus olhos.

    - Amo-te, mãe!

Duas cartas

     O pouco tempo que me resta quero passá-lo contigo, a escrever-te estas linhas. É a mesma coisa, não é? Sobra-me pouco sangue nas veias, o garrote não vai aguentar muito mais. As pernas falham-me tanto como quando te pedi para dançar naquela noite, debaixo das lamparinas que cintilavam cheias de vergonha, como nós, e eu aqui deitado, entregue ao criador. Pouco importa. Dançámos até não haver mais chão e depois nunca mais parámos. Uma vida imensa que agora se dilui nesta terra sangrenta. Ao meu lado já morreram todos, as balas silvam furiosas à minha procura, só te quero, e 

     - Amo-te    

     aperto mais o garrote, a ver se ele aguenta, se não cede como cedi ao sorriso que disparaste do outro lado do baile, morri ali, junto ao quarteto de cordas que nunca mais se calou, dançámos tanto e continuámos a dançar, de pôr-do-sol em pôr-do-sol, até que se cansou de pôr. Aperto mais

     - Amor 

     o meu peito contra o teu. Uma vida toda, breve, ao teu lado, vencendo tudo e todos. Esta guerra leva-me o sangue, o corpo, mas não leva o tempo que passei contigo, isso não. Fizemos tanto, amor, e amor também, depois daquele

     - Amo-te 

     breve beijo que te segredei ao ouvido quando as lamparinas se apagaram, enquanto as pernas fraquejavam e os acordes se cansavam. Agora o chão reclama o meu corpo, este

     - Amor 

     que te dei, que gozaste, que desferiste tão profundamente. Estas balas são só afagos inocentes, gentis, não matam, das tuas mãos no meu peito, no meu pescoço. Quero morrer no teu beijo, debaixo da Lua que treme apagando-se devagar. Aperto mais o garrote, mas ele cede…

     - Amo-te 

     Que estas linhas te encontrem onde

     - Amor 

estiveres.

     - Amo…

Espero por ti.

    


 

     Senti tudo. Senti que agarravas a vida com as mãos, que me chamaste pelo nome quando gritaste à terra que te reclamava, a ver se ela me descobria. Descobriu. Um bando de pássaros esvoaçou repentinamente e aí percebi. Então acendi as lamparinas uma a uma, iluminando o adro da igreja só para nós. Não havia ninguém. Tal como no primeiro dia, no meio de tanta gente, éramos só nós e soube que,

     - Quero-te

     com todas as minhas forças, todo o meu sangue, havíamos de ser. Fomos. Fiz com que os nossos olhares se atassem naquela noite eterna. A banda tocou até não haver mais sustenidos. Os pássaros, vigilantes, queriam ter a certeza que, como eu tenho agora, enquanto esculpo estas palavras, esperarás por mim. Aquele nascer do dia viu-nos dançar até que os nossos passos fossem apenas leves toques, tão leves como as notas do violino sôfrego desesperado por não saber de ti. Mais uma dança e

     - Vem

     espero-te no mesmo sítio, debaixo da mesma luz que não quero que te leve, mas que te guie de volta até mim. Esta pedra fria não quer receber estas palavras. Não tenho forças para cravá-la com memórias que ela não quer guardar, receia que não voltes aos meus olhos. Então encho-me de raiva, num ímpeto rasgo o vestido, o coração, e

     - Quero-te

     mais do que nunca, revolvo a terra, grito por ti. Os pássaros voam em círculos, o céu verte lágrimas ocres sobre nós. O chão que deixou de haver quando parámos de dançar, reclama o calor do verão que nos abraçou naquela noite no adro. Depois as lamparinas tremeram incrédulas. Peguei-te na mão e disse-te

     - Vem

     nos olhos que és meu, não dessa terra sangrenta. Reclamo-te às trevas 

     - Quero-te

para sempre.

 

 

 

A tinta.

    

    Cheguei e depressa tentei explicar-lhe o que me doía por dentro. Era uma mágoa que tinha de sair e só ela me podia ajudar. Sentei-me à secretária, fitei-a, medi-a. Altura. Peso. Então decidi contar-lhe tudo desde o princípio. Não queria magoá-la, de todo, mas não tinha outra forma. Precisava de tirar tudo dentro de mim, fosse como fosse. Só assim poderia descansar. Ela cumpriria o seu propósito. Eu dava-lhe esse prazer, o de se sacrificar às minhas mãos, entregar-se à minha dor insuportável. Tinha de a purgar e ela de sofrer. Era assim. Ela sabia. 

   Acendi a luz amarela na velha secretária, puxei a cadeira para a frente e comecei com golpes gentis. O aparo da caneta largava tinta a medo. Nas primeiras linhas ela retraiu-se. Acalmei-a com o mata-borrões. Continuámos. Ela recebia aquelas palavras com alguma relutância. Eram duras, ásperas e algo frias. Mas era a minha dor que saía pela ponta do aparo, em forma de letras e tinta, confessando-se ao branco do papel. Depois da primeira frase as palavras fluíram. Ela, entre mim e o tampo de madeira polido, entregou-se às minhas mãos espiando-me aquela dor. 

   Pediu que continuasse. Estava a gostar de me ouvir, talvez? Custava-me, aquilo custava-me, confesso. Era um processo difícil. Sofríamos muito. Fazer passar tanta dor por uma ponta tão frágil e fina. Era duro. O aparo, estóico, habituado ao ofício, com grande paciência, guiou-me a mão pelo branco da folha que tão bem me compreendia. Contei-lhe muitas coisas naquela noite. A chuva lá fora e o amarelo do candeeiro fizeram-nos companhia madrugada adentro. Era assim todas as noites. 

    Eu chegava, hesitava, depois sofria. Ela nunca respondia, só ouvia. Era sábia aquela folha em branco. 

 

o Envelope.

    Não me lembro dos detalhes, mas o porco grunhia, a faca afiada exigia sangue. O alguidar azul, debaixo dele, sugava-lhe a vida que escorria da jugular. Golpe certeiro, morte lenta. Um dos homens dizia que era melhor uma bala. O outro que não, que assim o sangue não escorria como deve ser. O alguidar azul tinha de ficar cheio. É na jugular, disseram. Deixa escorrer. 

    Caraças! O animal grunhe e guincha que se farta, eu também, pendurado de pernas para o ar com uma lâmina encostada ao pescoço. Já ouviram um  porco antes de morrer? Eles sabem, eles percebem…

    Há dias recebi uma carta. Não abri. Vinha do hospital, trazia um destino qualquer lá dentro: não abri. Chegou de bicicleta. A corrente gemia por óleo, a campainha chamava por mim: 

    - Chegou, vizinho, chegou! - A carta que eu não queria que me encontrasse. Lambida, lá longe, com uma notícia que não queria ouvir. - É grave? - Perguntou. Tlim! Tlim!

    O bicho continuava pendurado, grunhia, quase que falava. 

    - Morre, porco! - Dizia, num pedido derrotado, num idioma morto, quase suplicando. 

    - Vá, vamos! - Com pronúncia do norte, o médico. - Diga trinta e três. Morreremos todos um dia, sabe! - Depois do porco só o silêncio do fio de sangue no azul do alguidar. Eu de cabeça para baixo. 

    O envelope tremeu-me nas mãos, qual gineto bravo. Trouxe-o para dentro, amansou. Era na jugular, disseram. Oito meses em cima da cómoda. Grita porco, grita! Sem abrir. A jugular inchada. Aguento mais uns dias e abro-o. Espero que o vento amaine, que me traga tempo. 

 

Decido não abrir, afinal. 

 

A não ser que o vento aqueça:

Aqueceu. 

Que chova:

Choveu. 

Que o porco grite:

Gritou. 

Que a cómoda arda:

Ardeu. 

    

Mesmo assim decido não abrir. 

Não abri. 

Há gritos que se querem mudos. 

 

Dois Lugares.

Naquela manhã o comboio chegava dois minutos atrasado. Havia quem refilasse. Outros, mais alheios, ignoravam evitando cruzar os olhos com os passageiros de todos os dias. Dois silvos ressoaram no apeadeiro arrepiando-me as costas, fazendo crescer em mim a certeza de ainda estar vivo. Um enorme bando de pombos bateu as asas agitando o pó dourado pelo sol. Depois, poisaram no alpendre. Um tresmalhado, mais lento, provavelmente sábio, pendurou-se no relógio observando-me, inclinava a cabeça, muito curioso. Atrás de mim entrou um homem, vestindo um sobretudo cinzento, trazia um caminhar sorumbático. Arfava um ar embaciado que entrava e saía da boca esforçadamente.

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