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Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Ensaio sobre o sossego.

 Frederico van Zeller

Frederico van Zeller

    Haverá algo mais desassossegado do que alguém que contempla o mar, se não, o seu próprio sossego? O sossego que carrega nos ombros curvos e pesados. Na sombra que teima por atalhos dúbios. Nos pensamentos distantes e vagarosos que, ao pé do mar, ao lado da sua sombra, debaixo do sol, parecem ficar quietos. Esperam pelo rebentar de mais uma onda, pela espuma branca tocada ao vento. Um vento quente de um outubro estranho. 

    A sombra dúvida de si mesma, dúvida pertencer àquele homem que teima por caminhos vagos. Agarrados um ao outro, sombra e homem, divididos em partes iguais, seguem por caminhos incertos, contemplando o mar assim de longe a longe, umas vezes bem de perto, perto demais, outras vezes perto de menos. Umas vezes cá e outras, tantas, lá. 

    O homem dúvida que aquela sombra lhe pertença. Uma companhia baça, espessa, que o arrasta na calçada incerta. É uma sombra desconhecida, curva, gasta e presa. Lembra-se de uma sombra de costas largas, espaldar firme, curta, sempre junto a si. Astuta.     

    Agora é uma sombra de sombra, uma sombra velha, taciturna, uma sombra que sonha ser âncora, uma sombra sossegada. Uma sombra que não quer ser importunada.

    Eram umas três horas da tarde, julgamos nós, pelo tamanho da sombra. Partiram juntos rumo a destino certo, num desassossego próprio e constante. Conversaram e depois discutiram, depois conversaram outra vez e concordaram em seguir. Calados. Dividiram o caminho, ele pela esquerda, ela pela direita, depois trocaram de lado e voltaram a discutir. Perceberam que não funcionava e resolveram deixar as coisas como estavam. O homem quis voltar a contemplar o mar, a sombra seguiu-o, fustigada, arrastada e contrariada. Rezingona. Ficaram ali umas horas, sossegaram. Foi junto do mar que fizeram as pazes. Deviam ser umas cinco da tarde.

    Não se zangaria mais com a sombra e a sombra não o chateava de volta. Combinaram assim. Até porque, para não se verem, teriam de viver no escuro para sempre. Para todo o sempre. Coisa triste. A sombra ficaria diluída em todas as outras sombras, uma mistura de todos os tons de trevas. Um abandono sombrio. E o homem seria um estranho. Assim sem sombra, sem dúvida, sem o contrário de si, sem a companhia sombria da sua sossegada sombra. Um desassossego. Concordaram. Não podia ser. 

    -Temos de encontrar o caminho! Senão será difícil continuar. Tu rezingona e eu contrariado. Não te arrastes, não me demores. Temos pouco tempo. Um dia, na cova, descansaremos. Eu serei osso e pele, comido por bichos. Finalmente quieto. E tu eternidade serás. Trevas entre os meus restos.

    -Serei sempre a tua sombra. Sejas de que tamanho fores, de onde vieres e para onde quiseres ir. Eu serei sempre uma sombra de ti, dos teus sonhos, vontades e ambições. Que ambicionas? Eu sei: que me cale, que me reduza ao que sou. Apenas tua sombra. Mas não te esqueças que aqui de baixo, aos teu pés, vejo que já não somos a parelha de outrora, tu corrias e eu, onde quer que tu pisasses, estava lá para te segurar. E como eu gostava que me pisasses. Fosse num agosto, janeiro, ou setembro, ao sol, nevoeiro ou meia coisa, tu pisavas e eu estava lá. Lembras-te do teu primeiro beijo? Eu estava lá, debaixo daquele candeeiro, numa noite fria de um outubro especial. 

    - Que desassossego! Desse beijo: dois filhos! E depois nem sombra deles. De que me serves então? Para que te pise? E onde estavas quando caí? Porque não me agarras-te? Chorei, lembras-te?

    - Lembras-te quanto chorou o outro antes de morrer?

    - … -     Meneou com firmeza e a sombra também. 

    - Vamos! Estou cansado. O mar que se contemple sozinho. Ele que seja o que é: água salgada. E que triste deve ser viver assim, sem sombra. Vamos, vamos! 

    Caminharam juntos, homem por cima e sombra por baixo. Chegaram junto de um muro  branco onde a sombra se pôs de pé ao seu lado. Observando-o disse-lhe:

    - Vês? 

    - Que queres? - Respondeu sem tirar os olhos do chão.

    - Que me vejas, assim de pé, ao teu lado.

    - No final desta parede voltas para o chão.

    - Onde pertenço?

    - Onde me proteges. - Disse-lhe, olhando em frente. 

Seguiram pelo caminho junto ao muro, em dois tempos, devagar e devagarinho. 

    - Há coisas que tu não viste! - Dizia-lhe o homem. - As lágrimas que me escorreram quando os meus se foram. Os gritos que dei quando o amor me falhou e as juras que fiz, em surdina, para que voltasse. As horas que passei no mar onde as sombras não têm lugar.

     Seguiam pela calçada onde a sombra desceu a seus pés e continuou:

            - Quando chegarmos à cova, quando a luz, por fim, se apagar para sempre, quando nos deitarem terra por cima e o barulho no caixão for ensurdecedor, quando, depois disso, finalmente estivermos sossegados, eu conto-te tudo o que não viste, tudo o que perdeste, tudo o que não viste daí de baixo. Nessa condição de sombra. E tu saberás, certamente, coisas que eu não sei. Teremos tempo, minha cara sombra. Teremos tempo. 

     Disse-lhe, mesmo no final do muro, onde a calçada acaba e a praia começa. A sombra desceu a seus pés. E assim ao pé do mar, num outubro findo, depois de muitas voltas, sossegaram. No sossego de cada passada, cada raiar de madrugada, cada lágrima invisível escorrida em segredo. Envelheceram em silêncio ao pôr de cada sol.

 

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