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Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

o Envelope.

    Não me lembro dos detalhes, mas o porco grunhia, a faca afiada exigia sangue. O alguidar azul, debaixo dele, sugava-lhe a vida que escorria da jugular. Golpe certeiro, morte lenta. Um dos homens dizia que era melhor uma bala. O outro que não, que assim o sangue não escorria como deve ser. O alguidar azul tinha de ficar cheio. É na jugular, disseram. Deixa escorrer. 

    Caraças! O animal grunhe e guincha que se farta, eu também, pendurado de pernas para o ar com uma lâmina encostada ao pescoço. Já ouviram um  porco antes de morrer? Eles sabem, eles percebem…

    Há dias recebi uma carta. Não abri. Vinha do hospital, trazia um destino qualquer lá dentro: não abri. Chegou de bicicleta. A corrente gemia por óleo, a campainha chamava por mim: 

    - Chegou, vizinho, chegou! - A carta que eu não queria que me encontrasse. Lambida, lá longe, com uma notícia que não queria ouvir. - É grave? - Perguntou. Tlim! Tlim!

    O bicho continuava pendurado, grunhia, quase que falava. 

    - Morre, porco! - Dizia, num pedido derrotado, num idioma morto, quase suplicando. 

    - Vá, vamos! - Com pronúncia do norte, o médico. - Diga trinta e três. Morreremos todos um dia, sabe! - Depois do porco só o silêncio do fio de sangue no azul do alguidar. Eu de cabeça para baixo. 

    O envelope tremeu-me nas mãos, qual gineto bravo. Trouxe-o para dentro, amansou. Era na jugular, disseram. Oito meses em cima da cómoda. Grita porco, grita! Sem abrir. A jugular inchada. Aguento mais uns dias e abro-o. Espero que o vento amaine, que me traga tempo. 

 

Decido não abrir, afinal. 

 

A não ser que o vento aqueça:

Aqueceu. 

Que chova:

Choveu. 

Que o porco grite:

Gritou. 

Que a cómoda arda:

Ardeu. 

    

Mesmo assim decido não abrir. 

Não abri. 

Há gritos que se querem mudos.