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Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

A primeira hora.

 Frederico van Zeller

Frederico van Zeller

    Levaste-me à primeira, com aquele sorriso lúbrico. Um feitiço talvez, não sei, um soslaio demorado que me levou ao interior da eternidade. Soubeste sorri-me em tal momento que, no peito que trazia descoberto, no olho certo, ali se cravou demoradamente.

    Levaste-me à primeira, com aquele sorriso lúbrico. Um feitiço talvez, não sei, um soslaio demorado que me levou ao interior da eternidade. Soubeste sorri-me em tal momento que, no peito que trazia descoberto, no olho certo, ali se cravou demoradamente.

    Lembro-me que era de manhã e o Sol procurava-nos em cada buraco da cidade,  entre as sete colinas ainda mergulhadas num manto de pó azul. 

    Mais tarde encontrou-nos e delicadamente cobriu-nos de calor. Deu-nos um banho de raios mornos que inundaram os nossos corpos nus, acordando-nos devagar. Somaram-se umas centelhas aos meus dedos, entregues naquele primeiros raios. Com elas, percorri as tuas coxas, tacteei o teu ventre destapado e depois, numa ânsia lasciva, incendiei os teus seios que depressa arderam em prazer. Os suspiros que brotaste em direcção ao céu prenderam-se nos meus. Que desassossego! Óh… Meu Deus! Aquela dança carnal cresceu num instante, assim ébria de suor vagarosamente destilado em volúpia das doces manhãs de verão. 

    Sorri-me de novo por favor! Vamos fazer com que o Sol se canse de nos procurar em cada lugar, em cada canto, em cada peito, em cada criatura viva onde não exista dor. E se dói, então, quando aperta aquela vontade tão ardente que faz a saudade corar. Vamos fazê-lo desesperar numa busca doida e nunca o deixemos encontrar-nos, fiquemos assim, tolos, deveras insolentes. 

    Sorri-te de volta umas duas vezes, na primeira hesitei, confesso, na segunda entreguei-me ao criador como se ele me enchesse de fogo e de dor. Deixei-me arder sem que o silêncio me cobrisse com os seus mantos pesados.

    Deixámos que o sol nos encontrasse uns tempos depois, lembro-me: era tarde e o ocre repousava no horizonte, sobre o mar, sobre o vento, e eu, de peito desfeito, de sorriso órfão, sem momento e sem o que dizer, respirei com aflição depois de ver que o teu sorriso não trazia, não entregava, não rasgava o ar com a mesma fúria, a mesma demora daquela bendita hora. O meu sorriso não encontrava o teu.

    Quis voltar àquele lugar, o primeiro, lembras-te? Supliquei ao Sol que mo mostrasse, pois já não lhe tinha rasto, já não lhe sabia o norte. O sábio circulo ocre foi gentil e concedeu-me a sua graça. Ele gostava daquele jogo e das partidas que lhe pregávamos quando nos escondíamos nas tardes embrulhadas em lençóis de prazer. Os seus raios vasculhavam nas colinas e sussurravam por nós quando nos encadeava sorrateiramente. Às vezes, gentilmente, trespassava a seda alheia da cortina esvoaçante que o vento, seu aliado, levantava.

    Então decidiu erguer-se, e, do alto solstício, à hora mais vertical, lançou sobre mim um rio de luz intensa.         

    Entreguei-me com uma sede cega à sua corrente imensa. Levou-me por mares que eu genuinamente desconhecia, oceanos inteiros e continentes de todas as cores e de todas as dores. Revelavam-se esmagadores de tão profundos e luminescentes, um após o outro. Fui buscando em passos largos e sôfregos o rasto desse lugar onde sorriste lentamente e onde está gravada aquela primeira obliquidade. Entre folhas verdes e chuvas castas, lavei a alma e assumi um rumo, um destino, tracei um azimute em direcção ao grande corpo celeste. Decidi não deixa-lo tocar no horizonte, nunca mais. A partir dali haveria sempre luz, jamais trevas entre nós. 

    Subi montanhas num fôlego só, movi as mais negras nuvens com as próprias mãos, afastei tempestades violentas apenas com a força da razão. Tudo isto para que lá do alto, abraçado ao firmamento, pudesse encontrar o teu norte sorridente. 

    Sorri-me de novo por favor. Vamos sorrir de sol a sol, vamos bradar sorrisos ao vento, e ele, com adolescência, que os espalhe onde haja um qualquer peito imprudente. 

    Lembro-me que era de manhã e o Sol procurava-nos em cada buraco da cidade,  entre as sete colinas ainda mergulhadas num manto de pó azul. 

    Mais tarde encontrou-nos e delicadamente cobriu-nos de calor. Deu-nos um banho de raios mornos que inundaram os nossos corpos nus, acordando-nos devagar. Somaram-se umas centelhas aos meus dedos, entregues naquele primeiros raios. Com elas, percorri as tuas coxas, tacteei o teu ventre destapado e depois, numa ânsia lasciva, incendiei os teus seios que depressa arderam em prazer. Os suspiros que brotaste em direcção ao céu prenderam-se nos meus. Que desassossego! Óh… Meu Deus! Aquela dança carnal cresceu num instante, assim ébria de suor vagarosamente destilado em volúpia das doces manhãs de verão. 

    Sorri-me de novo por favor! Vamos fazer com que o Sol se canse de nos procurar em cada lugar, em cada canto, em cada peito, em cada criatura viva onde não exista dor. E se dói, então, quando aperta aquela vontade tão ardente que faz a saudade corar. Vamos fazê-lo desesperar numa busca doida e nunca o deixemos encontrar-nos, fiquemos assim, tolos, deveras insolentes. 

    Sorri-te de volta umas duas vezes, na primeira hesitei, confesso, na segunda entreguei-me ao criador como se ele me enchesse de fogo e de dor. Deixei-me arder sem que o silêncio me cobrisse com os seus mantos pesados.

    Deixámos que o sol nos encontrasse uns tempos depois, lembro-me: era tarde e o ocre repousava no horizonte, sobre o mar, sobre o vento, e eu, de peito desfeito, de sorriso órfão, sem momento e sem o que dizer, respirei com aflição depois de ver que o teu sorriso não trazia, não entregava, não rasgava o ar com a mesma fúria, a mesma demora daquela bendita hora. O meu sorriso não encontrava o teu.

    Quis voltar àquele lugar, o primeiro, lembras-te? Supliquei ao Sol que mo mostrasse, pois já não lhe tinha rasto, já não lhe sabia o norte. O sábio circulo ocre foi gentil e concedeu-me a sua graça. Ele gostava daquele jogo e das partidas que lhe pregávamos quando nos escondíamos nas tardes embrulhadas em lençóis de prazer. Os seus raios vasculhavam nas colinas e sussurravam por nós quando nos encadeava sorrateiramente. Às vezes, gentilmente, trespassava a seda alheia da cortina esvoaçante que o vento, seu aliado, levantava.

    Então decidiu erguer-se, e, do alto solstício, à hora mais vertical, lançou sobre mim um rio de luz intensa.         

    Entreguei-me com uma sede cega à sua corrente imensa. Levou-me por mares que eu genuinamente desconhecia, oceanos inteiros e continentes de todas as cores e de todas as dores. Revelavam-se esmagadores de tão profundos e luminescentes, um após o outro. Fui buscando em passos largos e sôfregos o rasto desse lugar onde sorriste lentamente e onde está gravada aquela primeira obliquidade. Entre folhas verdes e chuvas castas, lavei a alma e assumi um rumo, um destino, tracei um azimute em direcção ao grande corpo celeste. Decidi não deixa-lo tocar no horizonte, nunca mais. A partir dali haveria sempre luz, jamais trevas entre nós. 

    Subi montanhas num fôlego só, movi as mais negras nuvens com as próprias mãos, afastei tempestades violentas apenas com a força da razão. Tudo isto para que lá do alto, abraçado ao firmamento, pudesse encontrar o teu norte sorridente. 

    Sorri-me de novo por favor. Vamos sorrir de sol a sol, vamos bradar sorrisos ao vento, e ele, com adolescência, que os espalhe onde haja um qualquer peito imprudente.

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