Duas cartas

     O pouco tempo que me resta quero passá-lo contigo, a escrever-te estas linhas. É a mesma coisa, não é? Sobra-me pouco sangue nas veias, o garrote não vai aguentar muito mais. As pernas falham-me tanto como quando te pedi para dançar naquela noite, debaixo das lamparinas que cintilavam cheias de vergonha, como nós, e eu aqui deitado, entregue ao criador. Pouco importa. Dançámos até não haver mais chão e depois nunca mais parámos. Uma vida imensa que agora se dilui nesta terra sangrenta. Ao meu lado já morreram todos, as balas silvam furiosas à minha procura, só te quero, e 

     - Amo-te    

     aperto mais o garrote, a ver se ele aguenta, se não cede como cedi ao sorriso que disparaste do outro lado do baile, morri ali, junto ao quarteto de cordas que nunca mais se calou, dançámos tanto e continuámos a dançar, de pôr-do-sol em pôr-do-sol, até que se cansou de pôr. Aperto mais

     - Amor 

     o meu peito contra o teu. Uma vida toda, breve, ao teu lado, vencendo tudo e todos. Esta guerra leva-me o sangue, o corpo, mas não leva o tempo que passei contigo, isso não. Fizemos tanto, amor, e amor também, depois daquele

     - Amo-te 

     breve beijo que te segredei ao ouvido quando as lamparinas se apagaram, enquanto as pernas fraquejavam e os acordes se cansavam. Agora o chão reclama o meu corpo, este

     - Amor 

     que te dei, que gozaste, que desferiste tão profundamente. Estas balas são só afagos inocentes, gentis, não matam, das tuas mãos no meu peito, no meu pescoço. Quero morrer no teu beijo, debaixo da Lua que treme apagando-se devagar. Aperto mais o garrote, mas ele cede…

     - Amo-te 

     Que estas linhas te encontrem onde

     - Amor 

estiveres.

     - Amo…

Espero por ti.

    


 

     Senti tudo. Senti que agarravas a vida com as mãos, que me chamaste pelo nome quando gritaste à terra que te reclamava, a ver se ela me descobria. Descobriu. Um bando de pássaros esvoaçou repentinamente e aí percebi. Então acendi as lamparinas uma a uma, iluminando o adro da igreja só para nós. Não havia ninguém. Tal como no primeiro dia, no meio de tanta gente, éramos só nós e soube que,

     - Quero-te

     com todas as minhas forças, todo o meu sangue, havíamos de ser. Fomos. Fiz com que os nossos olhares se atassem naquela noite eterna. A banda tocou até não haver mais sustenidos. Os pássaros, vigilantes, queriam ter a certeza que, como eu tenho agora, enquanto esculpo estas palavras, esperarás por mim. Aquele nascer do dia viu-nos dançar até que os nossos passos fossem apenas leves toques, tão leves como as notas do violino sôfrego desesperado por não saber de ti. Mais uma dança e

     - Vem

     espero-te no mesmo sítio, debaixo da mesma luz que não quero que te leve, mas que te guie de volta até mim. Esta pedra fria não quer receber estas palavras. Não tenho forças para cravá-la com memórias que ela não quer guardar, receia que não voltes aos meus olhos. Então encho-me de raiva, num ímpeto rasgo o vestido, o coração, e

     - Quero-te

     mais do que nunca, revolvo a terra, grito por ti. Os pássaros voam em círculos, o céu verte lágrimas ocres sobre nós. O chão que deixou de haver quando parámos de dançar, reclama o calor do verão que nos abraçou naquela noite no adro. Depois as lamparinas tremeram incrédulas. Peguei-te na mão e disse-te

     - Vem

     nos olhos que és meu, não dessa terra sangrenta. Reclamo-te às trevas 

     - Quero-te

para sempre.