photography - video - stories
DSC07460.jpg

Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Dois Lugares.

    

    Naquela manhã o comboio chegava dois minutos atrasado. Havia quem refilasse. Outros, mais alheios, ignoravam evitando cruzar os olhos com os passageiros de todos os dias. Dois silvos ressoaram no apeadeiro arrepiando-me as costas, fazendo crescer em mim a certeza de ainda estar vivo. Um enorme bando de pombos bateu as asas agitando o pó dourado pelo sol. Depois, poisaram no alpendre. Um tresmalhado, mais lento, provavelmente sábio, pendurou-se no relógio observando-me, inclinava a cabeça, muito curioso. Atrás de mim entrou um homem, vestindo um sobretudo cinzento, trazia um caminhar sorumbático. Arfava um ar embaciado que entrava e saía da boca esforçadamente.

    Na carruagem da frente, a minha preferida, sobravam dois lugares. As caras eram diferentes das de todos os dias. Umas eram amargas, outras sem olhos, enrugada nos seus corpos. Estranhas formas que mudavam cada vez que as fixava. Sentou-se ao meu lado uma criança com um vestido floral, leve como pétalas de rosa branca. Ria-se das sombras que raspavam na janela, e conversava alegremente com as criaturas ocres de tez tanada pelo sol de um agosto imaginário. 

    - Fazem-me cócegas quando não lhes sorrio. - Dizia-me com aqueles olhos amendoados, cuidadosamente emoldurados por pestanas tão compridas.

    O fiscal irrompia pela carruagem, seríssimo: dois “tic” como que a pedir os bilhetes.

“tic tic” - Bom dia, Senhorita! - “tic tic" - cordialmente inclinado sobre mim e sobre ela.

    Chapéu azul, pala preta, bordão dourado. Costas direitíssimas. Bolsa de cabedal pendurada no cinto enrugada por tantos invernos. Um sorriso igual para mim, outro para ela, para o maquinista, para o pombo com a cabeça inclinada, mas apenas um soslaio para o homem do sobretudo cinzento. 

    Um sorriso puído - “tic tic” - entre estações, entre passageiros apressados, ignorados, ignorantes, uns pedantes! Ah! - “tic tic”

     Dois silvos agudos ressoaram pelas paredes do meu quarto. Apitava, afinal, a chaleira na cozinha. Mulher, deixa-me dormir! Dois minutos haviam passado da hora. Cheguei à estação e o comboio partira deixando apenas um rasto cheio de vazio. Os pombos inclinaram as cabeças, meio curiosos, claro. Gritei-lhes, irritado.             

    Levantaram vôo remexendo o ar flavescente de um agosto findo. Uma menina de vestido ocre chegou depois de mim, singela, floral, muito leve, quase volátil. Um lírio nascia-lhe entre a orelha e o cabelo. Fiz-lhe uma cócega. Sorriu-me simpaticamente. Puxou-me o sobretudo acordando-me de um sonho esquisito e esperámos em silêncio, sentados lado a lado, no banco comprido cor de mel, naquela doce manhã resplandecente em ouro estival. 

 

“tic tic”

 

Frederico van ZellerComment