A tinta.

    

    Cheguei e depressa tentei explicar-lhe o que me doía por dentro. Era uma mágoa que tinha de sair e só ela me podia ajudar. Sentei-me à secretária, fitei-a, medi-a. Altura. Peso. Então decidi contar-lhe tudo desde o princípio. Não queria magoá-la, de todo, mas não tinha outra forma. Precisava de tirar tudo dentro de mim, fosse como fosse. Só assim poderia descansar. Ela cumpriria o seu propósito. Eu dava-lhe esse prazer, o de se sacrificar às minhas mãos, entregar-se à minha dor insuportável. Tinha de a purgar e ela de sofrer. Era assim. Ela sabia. 

   Acendi a luz amarela na velha secretária, puxei a cadeira para a frente e comecei com golpes gentis. O aparo da caneta largava tinta a medo. Nas primeiras linhas ela retraiu-se. Acalmei-a com o mata-borrões. Continuámos. Ela recebia aquelas palavras com alguma relutância. Eram duras, ásperas e algo frias. Mas era a minha dor que saía pela ponta do aparo, em forma de letras e tinta, confessando-se ao branco do papel. Depois da primeira frase as palavras fluíram. Ela, entre mim e o tampo de madeira polido, entregou-se às minhas mãos espiando-me aquela dor. 

   Pediu que continuasse. Estava a gostar de me ouvir, talvez? Custava-me, aquilo custava-me, confesso. Era um processo difícil. Sofríamos muito. Fazer passar tanta dor por uma ponta tão frágil e fina. Era duro. O aparo, estóico, habituado ao ofício, com grande paciência, guiou-me a mão pelo branco da folha que tão bem me compreendia. Contei-lhe muitas coisas naquela noite. A chuva lá fora e o amarelo do candeeiro fizeram-nos companhia madrugada adentro. Era assim todas as noites. 

    Eu chegava, hesitava, depois sofria. Ela nunca respondia, só ouvia. Era sábia aquela folha em branco.