Bons Sonhos

    Dás-me guarida nos teus sonhos? É que eu já não sei sonhar. Já perdi a conta aos sonhos que não vivi e não me lembro onde guardei os que te ofereci. Num sono profundo, talvez?

    Gostava de voltar a saber sonhar, mas para isso preciso que me ensines, que me mostres como se faz. Dormir não chega, já tentei vezes sem conta, é sempre assim, acordo e os meus olhos enchem-se de luz vazia, luz fria e estéril. Não sobra nada, apenas umas marcas no lençol remexido, entorpecido, suado, mas do sonho, esse vadio, nada.

      Foi naquele dia de céu ofegante e luz castanha que deixei de sonhar. Lembro-me de um par de nuvens que me perseguia de casa ao trabalho e de volta ao final do dia. Quando me deitei na almofada cansada, oca companheira e guardiã de outros sonhos perdidos, a minha cabeça pesava. Desde aquela noite seca não sonhei mais. Seria do peso?

    Dei por mim, vago, ébrio, mendigava sonhos a um estranho qualquer, por leve que fosse, por pouco que durasse, só pedia um laivo, uma lasca de sonho, um assomar por segundos, um reflexo, uma conversa. Nada, ninguém, fui dormir.

    Quando acordei, sabia que não tinha sonhado, de novo, aliás nada de novo, sabia que o que vivera era real e já pouco ou nada distinguia o dia da noite, o sol da lua, a tua boca da minha e, do sonho, esse vadio, nada.

    Até que encontrei uma vidente, leu-me a mão e disse-me que voltaria sonhar um dia, mas tinha de me esforçar. Era cega, mas leu-me a mão, estaria ela a sonhar? Invejo quem sabe sonhar, os que sonham alto e quem num sono vive uma vida, os que sonham de pé acordados, os que sonham no amanhã e os que sonham e que só sonham e que só sonham…   

     Podíamos encostar as nossas cabeças a ver se algum se pega. Disse-me a vidente cega que teria de ser debaixo de um céu gentil com uma luz morna. Não poderia haver nuvens nem estranhos à nossa volta. Não. Teria de ser perfeito, debaixo de uma araucária bem velha e de tronco grosso, elas sabem muito, mas isso da perfeição não existe pois não? 

     Bem velha porque será sábia, saberá a pergunta e a resposta, saberá que a minha idade é só um breve suspiro na sua existência e eu uma breve insistência no seu respiro. Saberá que não importa o que se sonha desde que se sonhe, mas eu, há muito que já não sei sonhar.

     Dás-me guarida num sonho teu? Prometo que fico tão silencioso quanto um trovão, observo-te ao longe como a vidente cega e no final abraço-te, debaixo de um céu casto, à sombra do longo tronco grosso da velha e sábia araucária.