Talvez?

     Gosto quando as palavras me escorregam das mãos. Quando caem, algumas desfazem-se em cacos, outras ainda inteiras, disfarçam a pancada seca da queda. Gosto de as apanhar e recompor os pedaços e os fragmentos aleatórios espalhados pelo chão. Com sorte, alguns, alinham-se numa frase, quando fazem sentido aproveito o que me mostram. No outro dia, de uns cacos soltos acabados de cair, fiz um texto inteiro, por magia, as palavras soltaram-se e espalharam-se no chão e uma prosa alinhou-se mesmo à minha frente. Corri e apanhei palavra por palavra, voltei a alinhar tudo no papel tal como estava no chão. Depois corri outra vez e fui buscar mais uns cacos que ali restavam, acrescentei-as ao texto, era uma composição, ficou pronta e não a li mais. 

     Peguei nela e dispu-la na parede, em género de quadro, com moldura e tudomas nunca mais a li e, confesso, até me esqueci. Noutro dia, por acaso, o quadro soltou-se e desfez-se no chão. As palavras, outra vez, despedaçaram-se, dispuseram-se, ajeitaram-se e a prosa perdeu-se. Uma prosa obra do acaso, não lida, não guardada e para sempre perdida.

      Depois disso, sempre que me escorrega uma palavra fito-a por longos minutos, memorizo a sua posição para que não se perca no espaço nem no tempo. Tem algo de poema, uma palavra que escorrega das mãos, algo de místico, etéreo e metafísico. No outro dia escorregou-me um palavrão, daqueles que fazem corar, ali ficou, e mais uma vez fitei-o por longos minutos enquanto fixei a sua posição. Estava de lado, estendia-se longitudinal à parede, e ali ficou. Fui dormir e depois de acordar ele já não estava lá - o mal criado - mas ainda bem, pois logo pela manhã não me apetecia corar.     

      Gosto quando as palavras me escorregam das mãos, quando se alinham e me dizem alguma coisa, uma mensagem, uma viagem, uma lição, uma pergunta ou uma afirmação. Há sempre alguma coisa a reter de uma palavra que se atira para o chão. Ela não caem assim, escorregam, soltam-se e depois como quem não quer nada lá nos desejam boa viagem ou qualquer outras coisa. 

      No outro dia escorregou-me um não. Fique logo aflito. Um não assim sozinho é perigoso e hesitei em pegar-lhe. Fitei-o por longos momentos e ele não se mexeu. Fitou-me de volta em provocação. Jogámos por mais algum tempo e depois mexeu-se, seria o vento? Mas um não não se mexe só com vento, não. Que provocador. Abri uma gaveta, onde havia umas palavras avulso e de lá, tirei um sim. Juntei-os longitudinalmente e fui-me embora. Nunca mais os vi, fundiram-se num talvez e foram felizes para sempre!