Tratado das Sombras

    Vamos fazer um negócio, você e eu. Um pacto de luz e sombra. Ando fascinado com esse tema, sabe. Assumimos que não pode haver um sem o outro, verdade? Assim, não haverá você sem a sua própria versão de sombra, caso eu não seja luz. 

     Curioso este movimento que imita o sol: se me baixo, sua sombra cresce, se me levanto, a luz que vem de si diminui-me, decida você se me curvo ou não. Fico quieto e oiço os passos vagarosos do avanço leve do levante que traz o calor, e com ele as sombras longas do fim do dia que deliciosamente preguiçam ao longo das dunas.     

     Assumimos que as sombras preguiçam, e eu com elas, depois, deixo-me adormecer ao som da espuma das ondas que se repetem no afagar das areias mornas, desse sotavento saudosos das nossas sombras nas horas ocre e quente vivo. 

     Pactuamos que eu sou o contrário da minha sombra, e você, luz de si mesma, não é sombra de coisa nenhuma. Erga-se do mar, das dunas, no celeste das manhãs azuis, sem sombras duras, sem luzes ainda muito cruas. Seja contra-luz quando o eixo se inclinar e derramar claridade. Seja silhueta e sombra quando um raio de luz evadido lhe desferir um gentil golpe de calor nas costas nuas. 

     Na hora mais vertical, quando a sombra se desenhar em poucos traços, pactuamos, você e eu, na areia molhada, uns segredos lavrados com a ponta dos dedos. Acha que conseguimos gravar sombras na areia, deixá-las impressas no ir e vir das ondas, no levante, no sussurro e pacato? E que ali se faça da sua sombra meu refúgio? Seria enorme, essa grafia.

     Deixe-me desenhar a sua luz na areia, pode ser que fique ali para sempre, que se transforme em rocha sólida e que dela nasça sombra. A sombra nasce e morre todos os dias no preciso movimento do eixo. Todos os dias à mesma hora, no mesmo sítio, damos um abraço, e um dia, daqui a muitos, claro, a nossa sombra lá vingará em ocres e violetas, azuis celestes, e preguiçará nas dunas, ou debaixo da espuma das ondas, ou no amarelo da areia lavada em marés de saudade que me curvam perante sua tamanha luz. Se você for luz, eu, serei assombro. Pactuamos?