Peso

    

 

    Podia ficar uma eternidade debaixo dela. O seu peso, em cima de mim, era como uma manta sólida de apego doce. Depois de tudo, podia continuar à espera, à sua espera, até que as luzes se calassem. O simples e demorado peso nu sobre o meu destino, vagamente impresso nos lençóis, condensava aquela hora num suspiro tremendamente fundo. 

    Era a coisa que mais ansiava, aquele quente, pesado, dos seus seios pousados no meu peito, aberto, e um suspiro, um silvo, mel, nos meus ouvidos. Deixei-lhe uns quantos poemas escritos nas costas, outros nas suas coxas, uns com a ponta dos dedos, os mais doces, alguns de mão cheia, assim de carnais, enquanto esgrimíamos amor, ao sol, à chuva, nunca no frio, sempre à sombra do azul. 

    Não era só o seu peso, o seu cheiro e o seu encanto, eram todos os gestos delicados e precisos, a cuidada coreografia que se desenhava no colchão, no chão, nas paredes, e às vezes só em abraços, ternos, juntos ao azul da janela.    Podia ficar uma eternidade preso numa lágrima derramada por amor, por amor depois de feito. Era o depois, só o depois que importava. O peso do depois. O peso do que acabara de se fazer. O amor pesava mais depois de feito, tinha o peso dos gestos, dos gritos, da dor e do prazer, das mãos cravadas na carne, dos segredos contados nos olhos, do sabor do suor, dos lábios mordidos e cabelos puxados, das camisas arrancadas e dos beijos molhados, da mão na mão e da mão no dentro.

    Podia ficar uma eternidade, ali debaixo, prensado contra o chão, contra os lençóis, junto ao imenso azul que brotava da janela. Era todo aquele peso, do amor depois de feito, dos seus seios suados, de uma eternidade condensada numa hora gasta entre paredes surdas e azuis de mil tons, que repousado no meu peito me entregava luz, paz em laivos quentes. 

    Eu, feito e crescido em parte incerta, guardava cada hora parca naquele azul, como se âncoras arrastadas em leitos lisos, em lençóis ensopados no peso do orvalho acabado de condensar.         

    Debaixo dela, podia ficar tantas horas quantas o infinito conseguisse guardar na forma liquida de uma lágrima derramada por amor depois de feito.

     Podia continuar à espera, à sua espera, prensado pelo suave azul. Aguardava debaixo dos lençóis, juntando minutos em horas, horas em dias de espera áspera, só para voltar a ter o seu quente na minha boca, ali, imerso no imenso silêncio das luzes apagadas, no amor fundo, depois de feito.