As Pontes

    Nas ruas ninguém ligava a ninguém, era assim porque era assim. Sempre fora, não me lembro de ser diferente. Havia uns tipos, às vezes, que vinham de longe, das aldeias mais distantes, e que nos primeiros dias ainda se espantavam com a indiferença que ali teimava. Mas com o passar do tempo também eles se tornavam indiferentes. Toleravam aquilo como se tolera uma picada de mosquito. Havia pontes enormes com gente debaixo, prédios grandes com gente dentro, e ruas cheias de gente mas vazias de pessoas. As gentes corriam daqui para ali, sempre com pressa, para chegar a lugar nenhum. Corriam do vazio para o nada e aquilo tolerava-se como se tolera uma picada de mosquito. Eram massas de gente, andavam em bloco, faziam um barulho ensurdecedor duas a três vezes por dia. Mesmo quando os mosquitos picavam incessantemente - e se picavam! - ao fim de algum tempo tornava-se tolerável, deixávamos de sentir e de coçar. Como os ratos, que se comiam quando não havia mais nada para por no bucho. 

    Havia os carros também, afinal era uma metrópole, tinha de ter carros e comboios, metro, aeroporto, heliporto e mesmo um porto. Do porto sabia, era enorme, atracavam lá cargueiros que continham um mote de inutilidades. Sabia deles, via-os nas nuvens de barulho distantes e vagas, ouvia-lhes o guinchar metálico e as sirenes longas quando ecoavam nos pilares da ponte. Era uma coisa imensamente cheia de vazio. Porque haveriam coisas cheias de vazio? 

    As gentes eram de todos os tamanho e feitios. Havia gente alta e de barba, baixos e carecas, gordas, outras eram feias e outras eram bonitas e loiras, algumas morenas, e umas ruivas. Lembro-me bem da ruiva, nessa altura, era fogo ignição. Debaixo da ponte pequena, chamavam-lhe assim porque só tinha dois pilares, havia um sítio quente onde a ruiva dormia, e por vezes ela, lá está, tolerava-me. E eu a ela. Nunca soube o seu nome mas sabia-lhe o cheiro e sentia-lhe o fogo. Depois havia o barulho, o zumbido, aquilo deixava-me cego quando era mais forte. Nesses dias ficava mais quieto porque o barulho confundia-me os sentidos. Ali, debaixo da ponte, era o que podia chamar de casa. Nunca tinha visto uma e não fazia ideia de como eu tinha ido ali parar, nem porque não tinha uma casa. Estava ali e era assim, porque sim, desde sempre, desde que me lembrava. Não me lembrava de nada antes das pontes. 

    Quando a ponte foi destruída tivemos, a ruiva e eu, de encontrar outro lugar, mas todos os cantos estavam cheios, todos ocupados, e no caminho, na busca árdua, perdi-lhe o rasto, nunca mais a encontrei. Às vezes parecia que a via. O seu cheiro era inconfundível. Mas aquele cheiro, que às vezes sentia, era de outras ruivas, não da minha ruiva, ela não cheirava assim e nunca mais a encontrei. Era o que achava poder ser parecido com o cheiro de mãe, nunca tive mãe, e acabava de perder o que de mais parecido há com uma. O cheiro dela era-me confortável com deve ser o de uma mãe, não sei. Mas devia ser. 

    Chegavam-me ao nariz outros cheiros, cheios de outras coisas, naquela nova parte da cidade, naquela ponte nova. Deixavam-me confuso, era tudo novo, tinha de aprender tudo outra vez. Os caminhos, os contentores, as ruelas e becos, os abrigos e o caminho de volta aos pilares. Perto dos pilares era seguro. 

    Na ponte, na ponte nova, eu, costumava ficar debaixo do segundo pilar, o mais alto, nos outros mais abrigados não me toleravam e não havia ruivas. Quando chovia era como se tivesse debaixo de nada. Ali a chuva, tinha outro toque, era mais áspera. Molhava da mesma maneira, mesmo quando ficava de cócoras encolhido para não arrefecer. Quando chovia, ainda hoje é assim, tudo mudava, era como se pusesse uns óculos e via tudo mais limpo, mais lavado, e mais nítido. O som também era diferente, os barulhos amplificados pelo molhado das paredes faziam-me ver mais longe, como se tivesse uns binóculos, conseguia ver para lá do quarto pilar da ponte grande. Era como se os sons da cidade escorregassem melhor, chegavam-me mais agudos, mais rápidos e de mais longe. 

    Fazia frio intenso debaixo da ponte, nos becos era mais abrigado, quando havia lugar, claro. Eu era pequeno e cabia no meio dos outros, era tolerado vá. As gentes não eram más, aquilo que eu não via, também não conhecia. Só tinha medo do que conhecia, mas como conhecia pouco, o medo não era muito. 

    Os neutros, sim, os que não cheiravam nem bem nem mal, deixavam de vez em quando cair uns trocos que ouvia a tilintar como prata vinda do céu, era raro mas acontecia.  Os neutros eram invisíveis, quase, só os sentia já muito perto. Depois ia a correr trocar por pão. Não percebia bem a lógica da coisa, trocar ferro frio - dos bolsos alheios - por pão quente, mas era assim e era bom, era um conforto. O que era mau eram as pisadelas, os gordos pisavam muito, pareciam não ter olhos, nem saber para onde iam. Eu já lhes conhecia bem as passadas pesadas e fugia delas, aprendi da pior maneira quando um gordo, bem gordo e mal cheiroso, me pisou de tal forma que coxeie durante muito tempo. Durou bastante, dos dias frios até chegarem os dias quentes, sempre a coxear, foi duro. 

    Adorava os dias quentes. Acontecia sempre qualquer coisa de especial e parecia haver menos gente e menos barulho. As massas de passos apressadas a caminho dos seus vazios parecia mais branda, era tudo mais clamo, e, obviamente quente.  Um dia desses, um dia quente, pousaram umas suaves, delicadas, toque algodão, em cima das minhas. Eram em nada semelhantes com alguma coisa que tivesse tivesse sentido noutras mãos. Na verdade não conhecera muitas mãos. Era uma pele que não parecia pele, e o cheiro, o cheiro era maternal, muito maternal,  não sabia que o maternal cheirava assim. Era um cheiro de ruiva lavada, mas muito familiar… Muito familiar. Fran era o seu nome. Eu não tinha nome, ouvia ás vezes chamarem por cego, puto, mas não sabia se era o meu nome, nem o que era cego ou puto. Fran tinha cheiro de ruiva. Mas não era uma ruiva qualquer. Era o cheiro da minha ruiva! 

 

    Encontrou-me e mostrou-me o seu nome nas palmas das minhas mãos, sem me dizer uma palavra, ela não falava, nunca lhe conhecera a voz, mas cheirava a bem, cheirava a paz, a mãe. Levou-me, dali, para novos cheiros e toques, ruídos e temperaturas, não conhecia coisas quentes nos dias frios, nem o contrário. Conhecia pouco. Só conhecia o que vira até então, o que vira através da ponta dos dedos, do arrepio da pele, do farejar do meu nariz e dos ruídos, havia muita coisa para se ver nos ruídos. Mas não sabia que os olhos eram para ver. Eu afinal via tudo. Via ruivas e loiras e gordos e gentes tolerantes a ignorarem-se uns aos outros nos caminhos vazios. Via que a tolerância era igual a indiferença, via que eu era paisagem, eram todos cegos pela tolerância. Via a pressa nos ritmos, duas a três vezes por dia, via o frio como manto nas noites silenciosas, via o vazio debaixo daquelas pontes magras. Via tipos que vinham de longe em magotes, todos juntinhos, e rapidamente dissipavam-se na indiferença, via o amargo nos passos ruidosos apressados e no molhado das paredes, via, as gentes cheias de vazio. 

    Depois da ruiva me encontrar, deixámos as pontes e vagueámos para um sitio calmo. Havia árvores, altas e bicudas, bem verdes e melodiavam ao vento. Havia silêncio, muito silêncio. Um silêncio muito doce e cheio de cor. Tinha, agora, uma panóplia completamente nova de cheiros e toques, não havia becos nem ruelas. O cimento dava lugar à relva e a terra cheirava a fresco quando chovia, o cheiro da terra chovida era incrivelmente maternal. Um edifício alto carregado de trepadeiras, orquídeas, rosas, alecrim, tulipas, centáureas-menores muito azuis, crisântemo bola - brancos e amarelos - e sobretudo carregado de muita cor, cada pétala contém um cheiro carregado de cor. Eu perdia-me nos cheiros de cada cor. 

Fran estava cansada, já a conhecera assim, e ali, desvaneceu-se no colorido das flores, no verde da relva, no azul do céu e no silêncio melódico. No verde, no amarelo, no azul e no distante murmúrio cru da metrópole e das suas pontes.