Tratado peregrino

Quero viajar dentro de ti. Não na tua alma, isso é banal, mesmo dentro de ti. Somos galáxias imensas, tu e eu, à espera de colidirmos um com o outro, um no outro. Não se pode ter tudo, dizem, mas eu quero o teu todo, o teu inteiro e o teu vazio, o teu cheio de mim. Sabes o que acontece quando duas galáxias colidem? Eu também não, mas quero ver, quero saber, quero explodir contigo, em ti, quero desconcertar tudo o que há de certo nas orbitas normais, nas gravidades previsíveis e quebrar esse silêncio monótono que sufoca os quotidianos e os meridianos. Percebes de meridianos? Eu também não.

Quero viajar dentro de ti, pelas tuas mais latentes estrelas e mares gelados das luas mais recônditas por descobrir. Somos tudo por acontecer e seremos tudo por descobrir se partirmos agora mesmo, há urgência no que digo porque o tempo, nesta viajem, não é linear, não foi estudado, tem outra unidade outra medida, outra dimensão, a do que couber na nossa bagagem, a medida do que sonharmos ser, a medida do tamanho da nossa colisão.

Quero viajar nas tuas hesitações e certezas vagas, porque nesta viajem nada é certo, depois da enorme colisão não sabemos o que restará, se é que restará alguma coisa. Podemos demorar uma eternidade num só segundo se ficarmos de olhos fixos um no outro enquanto subimos, enquanto descolamos desta gravidade pesada que nos prende a este chão áspero. Quero ascender contigo e encontrar o vácuo, o não atrito e pairar com toda a leveza condensada num só gesto, o gesto de um beijo sem gravidade alguma. Quero beijar-te nesse silêncio, sem entropia entre a minha boca e a tua, só assim um beijo é completo, e eu, quero beijar-te completamente! Compreendes agora a urgência? Podemos tornarmo-nos peregrinos nos nossos próprios imensos, nos nossos cheios, eu de ti e tu de mim. Seremos pele una, alma una,  no que restar da intemporal viajem de descoberta, ser um universo condenado a um beijo só, mas então, completo.