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Escrito em luz e letras

São retratos, paisagens, fachadas, arvores, pedras ou tão só pedaços de mundo que me entraram pela lente e se me guardaram na mente. Deixo-as gravados aqui, em luz e letras. Podem ser um ponto de partida ou de chegada, uma história contada, fotografada, com sentido, ou não. Se uma imagem vale por mil palavras, então, juntemos as duas no mesmo lugar, a par e passo, terra e lua, para que nada fique por dizer.

Kevin

Kevin, inglês, vive em Olhão. Depois de correr o mundo escrevendo sobre ele e sobre gastronomia, decidiu-se por aquela pacata cidade do sul de Portugal. Visitou mais de cinquenta países, pisou todos os continentes derramando tinta em publicações de prestígio mundial, contou-me enquanto servia um copo de vinho. Voz afável, simpatia contagiante, própria de um exímio anfitrião das terras de sua Majestade. Escolheu aquele lugar, entre inúmeros, umas ruelas perdidas na cidade onde outrora as portas foram famosas por outros motivos, em plena ria formosa, justo onde o sotavento e o barlavento se encontram, onde as águas calmas e formosas, evidentemente, lhe permitem desfrutar de uma qualidade e quantidade de ingredientes inigualável no resto do mundo. Afirma-o com a convicção de quem ali se enraizou e foi fazendo a sua casa entre as bancas dos frescos e o ir e vir das marés da ria. Todos os dias vai ao mercado e nele procura o que vai oferecer aos clientes do seu recanto perdido nas calçadas labirínticas do casco antigo de Olhão, no Chá Chá Chá. As paredes pálidas e as cores desbotadas das portadas da rua, a esplanada coberta por panos esvoaçantes, ali no interior da cidade, escondem um segredo que se quer mal guardado. Da parte que me toca Kevin, não serei eu o túmulo dessa pérola da gastronomia portuguesa, um hino aos nossos ingredientes, à frescura, à simplicidade e à humildade com que se servem excelentes refeições a quem acha que já viu algumas coisas, incluindo eu. É, sem dúvida, de grande coragem fazeres o que fazes. Pegar no que de melhor temos, do mar e da terra, dando e recebendo, conferindo-lhe um toque pessoal. Sem ambições. Antes pelo contrário, “we are not trying to be chef´s here”. Ah, Kevin, British politeness at its best! Nesta última visita encontrei-o atrás do balcão, experimentando com a sua cozinheira, esgrimindo com a grelha umas finas fatias de manga, queijo curado que desmaiava sobre o amarelo tropical, mel, sal e pimenta. Não provei, ainda… Kevin?









 









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